Depois do instagram

 

Quando vi o filme Her, achei-o ridículo. Senti que retratava a nossa realidade de uma forma exagerada, mas não tão distante. De tudo no filme, só me recordo de uma coisa, da voz da Scarlett Johansson. Nunca a apreciei como atriz, até escutá-la neste filme. Apesar de vivermos na ERA da imagem, só me recordo da voz dela. Neste tema é inevitável falarmos das redes sociais, do isolamento que ela provoca e sobre o futuro das marcas. E a pergunta que todos fazem é: “o que vai acontecer depois do instagram?“. Por isso, hoje vou-vos falar sobre as novas redes sociais.

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As redes sociais apoderaram-se do nosso dia a dia e quando se deu o apagão no instagram e whatsapp parece que não sabíamos o que fazer. Temos escutado as pessoas comuns e até as influencers dizerem-se cansadas das redes e frases como “offline is the new luxury” invadem os nossos feeds.

O instagram é a rede social mais popular do mundo, com um bilião de utilizadores e se tudo começou em torno da ideia da imagem, rapidamente começou a incorporar funcionalidades do Snap Chat (filtros), funcionalidade de escrita e de voz do Whatsapp e recentemente a loja. Apesar de as redes sociais surgirem para quebrar barreiras físicas e pôr-nos a socializar, a verdade é que elas estão-nos a isolar. A solidão foi um dos assuntos mais falados no South by Southwest deste ano.

“to be truly yourself and be connected with your best friends, you need your own space”.

fundador de conteúdos do instagram

Por isso, o Instagram incorporou uma opção que permite os utilizadores criarem uma lista de pessoas com quem poderão partilhar vídeos de uma forma personalizada e íntima — os “Close Friends” integrada nas funcionalidades de "Histórias". Pode parecer novidade, mas a verdade é que o Facebook já tinha os grupos fechados. Certo?

Ou seja, se tudo começou de forma genuína e até naif, rapidamente os filtros, e a construção da imagem perfeita veio desvirtuar as redes. A Everlane antes de ter o TREAD criou o Everlane Studio com o objetivo de criar um relacionamento mais autêntico e qualitativo com seus followers mais genuínos e amantes da marca, antes de iniciar a nova marca de sapatos. Por isso, hoje vemos marcas a criarem contas privadas e as influencers a criarem contas particulares onde revelam as suas verdadeiras emoções e a vida “não” perfeita.

É assustador pensar que eu aos 9 anos o meu universo girava em torno das Barbies, onde os livros da Anita faziam de paredes da casa imaginária e os meus ídolos eram os Onda Choc. Hoje as miúdas com a mesma idade brincam aos “youtubers”, no telemóvel, falam brasileiro como se fossem nativas e os seus fãs vivem do outro lado do mundo. O seu vocabulário nas brincadeiras giram em torno do: “se gostaste faz like”, “tal como pediram, vou-vos mostrar onde me maquilho”, “não te esqueças de partilhar com os teus amigos”,… tudo gira em torno do feedback da comunidade. E não vale apena reprovares o comportamento, a não ser conseguires “guiar” a criança. É inevitável! Temos de saber lidar com isto.

É certo que não passa de uma brincadeira, mas isto define o universo atual desta geração. Por isso, o que vem a seguir ao Instagram? talvez o TikTok para as novas gerações. Marcas como a Burberry ou a Calvin Klein, andam a tentar conquistar publico mais jovem e já estão a desbravar caminho nesta rede. Nela podem fazer vídeos, partilhar, conversar, usar filtros. Ao contrário das outras redes que têm uma postura mais passiva tipo #ootd o engraçado é que o mercado caminha para conteúdos menos “pensados”, menos “filtrados” e os users do TikTok estão viciados porque são incentivados a sincronizar os lábios, a dançar ou fazer efeitos cómicos ao som da aplicação. Já viram o “duet” ?

Bem, indo mais além, só vi 3 episódios do Year and Years da HBO, mas vi o suficiente para ficar em alerta. Esta série retrata uma família comum e os seus desafios na incorporação da “normalização” da tecnologia. 3 momentos marcaram-me profundamente:

  1. a ausência de relações físicas

  2. a presença da Alexa

  3. o novo TRANS

Começando pelo primeiro, a filha adolescente (de 15 anos) enviou uma notificação aos pais a solicitar uma reunião para conversaram sobre um assunto importante. Relevante será referir que a filha estava à frente dos pais, a tomar o pequeno almoço quando enviou a notificação. Ela não conseguia dialogar sem filtros (aquelas caretas do Snap Chat). Quando comentei isto com um amigo, ele disse-me que os alunos dele (da universidade) passam por ele, não falam e enviam email, estando no mesmo corredor que o professor. O mesmo acontece com os adolescentes que vão à discoteca, olham-se, mas não se falam. Só quando chegam a casa é que abordam via Instagram. Eu própria tenho pessoas que falam comigo nas redes sociais, mas fisicamente não me cumprimentam. A ausência física das relações é assustador. Não?

Numa época de TINDER(s) em massa e insinuações visuais, a tendência mostra que aplicações tipo Bumble passaram a dar uma resposta física, devido ao “desgaste digital” dos consumidores (isto é tão ridículo, porque está tudo invertido. ) No entanto o Instagram continua a ser o rei. Os recursos do Instagram - histórias, marcação de memes, geo-localização e mensagens diretas, são essenciais para namoros bem-sucedidos; desde que a contextualização e as histórias dessas pessoas sejam efetivamente reais. A vida real é a cereja no topo do bolo.

Não falei do filme Her por acaso! Bem, sempre ouvimos que uma imagem vale mais que mil palavras, mas se estiverem atentos as marcas estão todas a caminhar para os podcasts. A Gucci, a Goop, a GirlBoss, a Glossier, a Man Repeller, a Porter, a Net-a-Porter. Todas elas estão a caminhar para a voz. Na verdade as marcas andam à procura de comunicar através de áudio e de palavras para combater a falta geral de interesse em formatos visuais. Sim, esta é a grande verdade. Andamos todos cansados da mesma coisa e segundo o Pedro (compositor musical), com a voz tu consegues promover uma relação genuína. “A tua voz diz mais de ti do que a tua imagem.” Porque mostras as inseguranças, as certezas, a sabedoria, o humor e é altamente transparente. E tudo gira em torno do conteúdo genuíno. A verdade é que na série Years and Years a grande presença da ALEXA (coluna portátil virtual) faz-nos ir mais além questionando a nossa forma de receber informação, de pesquisar e de comprar. Questionando muitas vezes a nossa sabedoria. Bem, mas isto seria um outro assunto.

Acredito que as novas redes sociais, serão as redes de voz, mas antes de surgirem as plataformas de PodCasts em massa, o que vai substituir um instagram são as novas comunidades de marca. Tipo Girl Boss Community (o linkdin das empreendedoras) ou a comunidade Goop com eventos, palestras, podcasts, app (sim, a dimensão física vai também existir). Nós vamos escolher a que grupo queremos fazer parte. A Glossier está nessa caminho.

Seja em voz, seja em imagem, o segredo é só um, a construção de conteúdo genuíno.

Apesar de eu querer só falar das novas redes sociais, um outro assunto que se levantou na série e que me deixou transtornada foi o chamado “novo” conceito de TRANS. À partida se ouvirmos esta palavra, “trans”, significa trans-género, alguém que muda de sexo. Mas o novo TRANS é outra coisa, quer dizer TRANS-HUMANO. Pessoas que querem “doar” a sua informação para viver eternamente na cloud. Ok. Isto sim, deixou-me perturbada.

Há claramente uma mudança de paradigma. Se hoje vivemos com medo da “pegada digital”, no fornecimento de dados pessoais, fotografias, geo-localização, no futuro, os nossos filhos vão desejar criar uma pegada digital e ficarem eternamente na cloud. Ainda não processei.

Joana

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