A internet das coisas!

A Bia disse-me que estava viciada nas redes sociais e que eliminou a app do instagram para conseguir trabalhar de manhã. Quando acordou a primeira coisa que fez foi instalar a app novamente, com receio de ter perdido alguma coisa. A internet cria ansiedade e transformou-se numa droga. Já não existe OFF. Como encontrar um equilíbrio?

illustration by me

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A verdade é que a internet é como uma droga. Publicamos algo e 5 segundos depois já estamos a fazer atualizações para ver a resposta, os likes, as visualização. Esta ansiedade vem da conexão com as pessoas, porque vivemos de estímulos.

Se pensarmos bem, este vício é parecido com a televisão. A diferença é que a televisão é fixa e não conseguíamos escolher conteúdos concretos. Hoje a internet está em todos os suportes e escolhemos onde e o que queremos ver. As nossas séries começam na televisão e passam para o tablet, já não estamos a consumir televisão mas sim vídeo… Tal como acontece com a rádio, que agora é áudio. Ao longo do dia, tu escolhes o que queres ouvir. No carro ouço podcasts, no escritório música e quando chego a casa ouço a receita que vou cozinhar (eu não cozinho 🤣). 3 momentos, 3 conteúdos diferentes, tudo isto a partir do telemóvel.

Cada vez que existe um estímulo, o cérebro recebe dopamine. Um químico orgânico que permite o cérebro receber prazer. Por isso, quando recebemos um follower novo, um like, o cérebro produz dopamine e vicia-se! O instagram é um “vício”, porque está pensado para um feed infinito, stories em cadeia… não há fim! Certo?

Efetivamente o telemóvel mudou a nossa forma de aceder à informação. Por isso, temos de escolher com mais inteligência o conteúdo e as pessoas com quem nos queremos relacionar.

Das frases mais giras que escutei esta semana é que a internet surgiu como uma “janela para o mundo, mas ela agora é um espelho desse mundo”. É um lugar de ajuda, partilha e conexão de trabalho, mas também um espelho pobre da vida das pessoas.

Hoje em dia, todos podem ser influencers, mas de que forma estamos a criar influencia? Todos têm algo a dizer sobre detox alimentar, nutrição, ginásio, tratamentos de beleza, drenagem linfática,... e os mais influenciáveis, começam a desejar ter uma vida semelhante (nós). Porque projetamos no outro a vida ideal que não conseguimos ter. Alguém me disse que “o instagram é um catálogo de viagens” e é bem verdade!

Não é algo assim tão distante e não acontece só ao outro. Nós para publicarmos 1 fotos tiramos 50. Certo? Editamos a imagem, colocamos filtro, emagrecemos a perna, e bla bla bla. Isto tudo, porque nos baseamos na imagem que temos do outro e aí cria-se o transtorno da imagem. Temos de olhar para tudo isto com mais cuidado.

Tudo em excesso é prejudicial, cria ansiedade, depressão,.. Quantas pessoas se queixam de problemas de sono e insónia? Quando comecei a ter problemas de sono, a primeira coisa que fiz foi não ver os emails da empresa à noite. Pois criava-me imensa ansiedade e não conseguia dormir.

Vivemos na ERA da economia da atenção. Usamos tudo gratuitamente, porque é pago com o nosso tempo... e é assim que as empresas vendem os nossos dados. O nosso tempo é valioso, e sempre ouvi dizer que tempo é dinheiro.  Por isso, fica a pergunta, o que estamos a fazer com o nosso tempo?

Ainda esta semana em reunião, ouvi dizer que o futuro passa pela contra-globalização, a globalização é óptima, mas está-nos anular culturalmente. Ainda sou do tempo, em que pedia às pessoas para me tiraram uma fotografia na rua e isso criava interações engraçadíssimas. Este fenómeno da selfie individualizou-nos mais e anula as relações.

É inevitável, todos sabemos que a tecnologia está a mudar o mundo, mas temos de re-pensar a forma como a usamos. A verdade é que já ninguém quer ficar sem internet. Já não existe ON / OFF, só existe ON.

As pessoas estão num caminho difícil. Porque querem fazer um “detox digital”, mas ao mesmo tempo, usam uma app para fazer meditação. Na internet das coisas, o bem estar físico e mental é encontrarmos um equilíbrio.

Se já não existe OFF, como é que vamos equilibrar a educação com a tecnologia? o telemóvel e internet estão a mudar as relações e a forma como nos relacionamos com os nossos filhos, a forma como nos relacionamos com o nosso marido, a forma como nos relacionamos com a nossa família. Noutro dia ouvi alguém dizer orgulhoso “os meus sobrinhos nem devem saber o que é um iPad”, mas se as tecnologias e a internet fazem parte do mundo de hoje, ocultá-las será o melhor caminho para a educação? Não fará mais sentido introduzir e ensinar a usar?

Por exemplo, hoje em dia eu tenho um grupo “família” no whatsapp ! Falo mais vezes com a minha família, do que quando tinha telefone fixo. Estamos mais envolvidos no dia-a-dia. Partilhamos refeições, partilhamos piadas, fotografias, tudo é um momento digital em família. Serão isto as novas comunidades? Se assim for, o meu whatsapp está cheio de micro-comunidades! O vosso não?

O mesmo acontece com os nossos filhos. Quantas vezes para conseguirmos conversar, colocamos os miúdos a ver YouTube ou a jogar ? Nas vossas respostas desta semana, vários foram o que disseram que conheceram os namorados no MIRC, HI5!, facebook, Instagram e Tinder. É toda uma nova forma de criar relações. Mas até onde vão os limites?

Os meus clientes já não me mandam e-mails. Fazem-me pedidos pelo whatsapp, pelo Instagram, partilham boards no Pinterest. Ficamos perdidos nas inúmeras ferramentas, de escrita, imagem e voz. E esperam uma resposta imediata!

Ao falar com uma amiga professora, ela disse-me que na escola se os pais perguntarem aos filhos se querem um telemóvel ou um computador, os miúdos escolhem o telemóvel. “Todos os meus alunos têm um telemóvel topo de gama”, pior querem fazer os exercícios da escola a partir das apps. É engraçado perceber que tudo está a evoluir a uma velocidade gigante e a escola mantém se no mesmo formato? Confesso que não entendo. Os professores têm um desafio gigante pela frente.

O mercado caminha para uma preguiça mental e a internet também veio aprofundar isso. Ainda sou do tempo da pesquisa na enciclopédia e do dicionário. Com a internet é ao contrário, temos a sensação que precisamos de estarmos sempre informados de tudo. Apesar disso, no futuro o músculo mental ficará adormecido. Porque a Alexa, tal como a calculadora, dará a resposta! A preguiça mental é o que mais me preocupa. Num dos livros mais fixes que li nos últimos tempos “Mindset”, ele fala sobre a inteligência fixa e a inteligência progressiva. O que mais me marcou no livro foi o facto de a inteligência fixa criar mais frustração, porque a pessoa não tem ginástica mental, está habituada a “decorar” e o sucesso para essa pessoa é estar em 1º lugar. Já a inteligência progressiva é para os que amam aprender pelo desafio da aprendizagem. E ao falar com um amigo professor, ele disse-me que os alunos dominam as apps, sabem fazer exercícios de repetição, mas não sabem relacionar os exercícios ou criarem desafios que nunca viram.

“Joana, como é que devo fazer?” Em resposta à Bia. “Quanto ao que disseste sobre estares viciada em tecnologia, lembra-te apenas que, usada de modo inteligente, ela contribui para o progresso humano. Usando a tecnologia com sensatez, as nossas vidas tornam-se melhores, o nosso conhecimento torna-se mais rico… ” li isto no livro “o Club das 5 da manhã” estou adorar e só estou no inicio.

Para quem quer fazer detox digital:

  • Cria um ritual matinal, que te organize o dia.

  • Coloca o telemóvel em modo avião a partir das 20:00 ou longe do olhar.

  • Não te esqueças do toque humano em todo o processo.

  • Faz um Follow saudável, se não te faz bem, não sigas.

Vou de férias, por isso partilho o primeiro desenho que fiz, nas férias mais produtivas que tive. Foi a primeira vez que desliguei mesmo.

Boas Férias!

Joana