Empoderamento masculino

A British Vogue faz capa este mês com inúmeros rostos no feminino. Há o movimento #metoo, há o #girlboss e hoje fala-se no “empoderamento feminino” com tanto orgulho que julgo estarmo-nos a esquecer do “novo homem”. Devem achar que estou louca, mas a verdade é que me deparo todos os dias com uma tremenda fragilidade masculina. Que homem é este ?

É hora de falar menos sobre roupa e falar mais sobre “moda” e o que ela está a fazer por nós.

A minha memória é curta, mas lembro-me de ver um pai com quatro crianças a passear em Copenhaga. Era lindo, mostrava destreza no que fazia, como se fosse um hábito diário. Passeou, mudou fralda, deu de comer, brincou. Era um dia da semana por isso perdi longos minutos apreciar. Deduzo que a sua mulher estivesse a trabalhar e ele era a doméstica.

Sim, “doméstica” é uma palavra que só pertence às mulheres. Significa “Mulher sem profissão remunerada que trata da administração, manutenção e arranjo da sua casa” A ideia de futuro é precisamente contrária. Vamos lá rever esta palavra ? 

A Ele homem, foi-lhe permitido ter os mesmos direitos que uma mulher. Ser feminista é defender a igualdade de género e percebo que o nosso país está aquém.

Desde pequena que o Estado tomou conta de mim. Foi ele que me introduziu à ginecologia, que fez o meu primeiro papanicolau, foi ele que me deu as vacinas, foi ele que identificou o meu cancro e foi ele que o tratou também. Ir ao médico é um ato tão corajoso, quanto ir a um psicólogo. Ah! já não me lembrava dessa parte! Também fui.  

Por outro lado, não me lembro de ver o meu irmão ou o meu pai a terem direito ao mesmo número de consultas. E percebo agora na idade adulta, que ir a um médico é ainda uma fragilidade masculina! ir a um psicólogo é ainda pior! 

Ouço muitas vezes esta expressão: “és um homem ou és um rato?” Os homens foram educados para não sofrer, para não mostrarem fragilidades, para não mostrarem inseguranças. 

Se pensarmos bem, hoje somos mulheres bastante diferente da nossa mãe e da nossa avó, certo? sentem o mesmo com os homens à vossa volta?
Vejo muitos homens em sofrimento à minha volta, porque lhes foi negada a ideia de sofrer. Nós (mulheres) falamos de mais e os homens de menos. E isso não é bom, porque mesmo em privado ou em grupos de whatsapp os homens partilham muito, mas não falam. Falar a sério. Faço-me entender ?

Foi-nos incutido durante anos que “Homem que é homem sustenta a familia, homem que é homem tem pulso firme, homem que é homem não chora.” A vaidade está nas conquistas e não nas fragilidades. 

Por isso, o homem de hoje faz terapia em segredo, toma medição escondido, vai ao urologista sem ninguém saber! tudo é um tabu.

Aos homens foi-lhes tirado o direito de cuidarem da sua saúde sem medos, foi-lhes tirado o direito de falaram da saúde mental e sexual sem preconceito, foi-lhes tirado o direto de serem vaidosos sem serem chamados de “metrosexuais”. 

Indo mais a fundo, foi-lhes tirado o direito de se maquilharem, o direito de usarem saia (obrigada Miguel Flor, por te permitires), foi-lhes imposto o azul, foi-lhes tirado o cor-de-rosa, foi-lhes tirada a liberdade de cozinharem, de tratarem da casa, de tratarem dos filhos e de se “empoderarem”. 

A sorte é que a nova geração está a quebrar barreiras. Fico contente de saber que existe um Luís Borges, um Rui Maria Pego, uma Beatriz Gomes, um Luis Carvalho, Conan Osiris. Vejo com orgulho bloggers a mostrarem os filhos com bonecas e a brincarem nas cozinhas. Vejo o Liniker orgulhoso da sua saia e do batom nos lábios (dos melhores concertos de sempre). Mas podemos ir mais longe! Da mesma forma que existe uma ideia de (re)pensar e empoderar o papel da mulher na sociedade (e sim, há muito trabalho pela frente) que alimenta a moda, também há na nova ideia pelas comunidades masculinas e trans. Vejam o caso da Lady Gaga com a sua nova linha de maquilhagem - Haus Lab. Só agora percebi que está a usar o seu poder para influenciar neste novo sentido. A própria arquitetura está a mudar! É engraçado que durante anos desejamos ter uma casa de banho só nossa! E agora? a própria arquitetura / comunicação quebra estas barreiras, com casas de banho sem género. Na verdade estamos já na era do pós-género, “unissex”, “agender, “no gender”. Em que vemos a moda a abraçar várias causas. Uma moda para pessoas livres, em que é questionado a própria definição de cor. 

Segundo o André Carvalhal a nossa linguagem nas palavra também está a mudar! usando o X para substituir o O e o @ para substituir o A. Até o cartão de cidadão vai deixar de ter género.  Porque na verdade o sexo biológico é o órgão sexual, o género é um rótulo, que é imposto pela sociedade para “caracterizar” os indivíduos. A verdade é que perguntar o sexo a uma grávida poderá ter como resposta “Por dentro ou por fora? ”.
Nós usamos orgulhosamente as calças boyfriend, os sapatos Oxford, usamos Blazers. Lembrem-se que foi a Coco Chanel quem nos deu o direito de sonhar, criando roupas a partir do guarda-roupa masculino. E o homem, quem o está a fazer sonhar? 

Voltando ao “novo homem”, sinto que Portugal tem de nos dar mais liberdade. Liberdade para construir o novo. Já pensaram no papel dos barbeiros? Os barbeiros estão a dar o primeiro passo para o homem “empoderado” que não tem medo de pensar com mais liberdade. Depois da barba, veio a depilação, depois da depilação as unhas, depois das unhas, o creme, os tratamentos de beleza e quem sabe a maquilhagem. (Não que isto tenha uma sequência lógica).

Noutro dia uma amiga perguntou se estaria interessada em ajudar na área da cosmética: “Preciso de encontrar uma história para vender a nossa marca”, e depois percebi que mais do que contar uma história, temos de olhar melhor para a nossa cultura. A história da marca, é um olhar sobre a nossa sociedade. Antes das férias, estive com um designer e ele tinha base na cara. E pensei, que coragem! Onde terá ido? Existe alguma loja onde ele possa comprar maquilhagem para homem? Terá sentido constrangimento na loja.? A própria definição “loja para homem” fará sentido? É maquilhagem, pronto! Sem género! Não será isto uma resposta à sua necessidade de uma história nova?

Bem, a Vogue quis celebrar uma vez mais as mulheres, mas e este “novo homem” e sobre a sua “masculinidade tóxica” não deve ser falado? ou tudo isto será falar sobre feminismo também?

Ao criar marcas, percebi que por muito que tente criar um valor único para elas, se o interior do empresário não mudar, nada muda! se ele não sentir um propósito, posso ter as melhores ideias do mundo que nada irá acontecer. Lembram-se dos urgentes ? Adoro fazer marcas para eles. Para os que querem mudar (efetivamente) o mundo. 

Por isso, aplaudo a última iniciativa da Baseville que juntou 3 seres humanos (Raquel Strada, Luís Borges e Rui Maria Pego) para celebrar a diversidade sem medo e sem género, com a t-shirt da R-Strada. É um primeiro passo, mas “mostrar uma peça de roupa não serve somente para proteger, envolver ou vestir, a moda é um veículo estético de expressão… ela pode ser bem mais que veículo de expressão social, valores e ideias. Ela pode-nos ajudar nos dilemas mais íntimos e a construir a nossa identidade, a nos individualizar”. Por isso, apesar de a moda hoje ser vista como um cancro, também pode ser vista como a cura para o mundo. As marcas vencedoras são as marcas sem medo.
Estando nós a viver um mundo tão “depressivo”, as marcas servem hoje para celebrar a igualdade, o amor e a vida. Não tenho uma resposta concreta, só sei que continua desiquilibrado. Por isso vale apena questionar.

Viva aos que estão atentos, aos homens e às mulheres com uma anima grande *

*Segundo Carl Gustav Jung, 1875 - 1961, anima é princípio feminino que faz parte da personalidade humana ou materialização do feminino no subconsciente humano.

Porque o homem que é homem só quer ser homem, deixem-no Ser.

Joana