É possível ser rentável vendendo menos roupa?
Conseguirão as marcas crescer, mitigando a ação climática?
Estamos na era dos FACTOS e não há empresas responsáveis sem demonstrarem o seu impacte ambiental. Todas as diretivas da União Europeia, apontam para um único objetivo limitar o aquecimento global a 1,5º C.
Em 1968 aconteceu o primeiro encontro global para falar sobre meio ambiente, a partir do qual foram criadas as reservas da biosfera da UNESCO. É também o ano da criação do Clube de Roma, que começou como um grupo pequeno de pessoas muito influentes — entre empresários, cientistas e políticos — que se juntaram para discutir o uso dos recursos finitos da Terra. Criaram um relatório transformado em livro “Os Limites do Crescimento”. Este livro escrito em 30 línguas, previa que, se não fossem feitas grandes mudanças no consumo de recursos, o crescimento económico atingiria o seu pico e depois diminuiria rapidamente por volta de 2040. E, no entanto, a extracção de recursos e o crescimento económico continuam inabaláveis dentro dos mesmos velhos modelos económicos.
56 anos depois continuamos a falar dos limites do crescimento com “O DEcrescimento” tema abordado pela primeira vez na União Europeia em 2023, o “Pós Capitalismo” de Paul Mason, entre tanto outros.
É crucial que a indústria reconheça que chegou o momento de repensar as atuais práticas comerciais lineares. Com a escassez de recursos exacerbada pela perturbação das cadeias de valor e pelo aumento da legislação que impõe práticas mais sustentáveis, nunca houve tantos argumentos para adoptar uma nova abordagem.
A mudança de modelos de negócio lineares para circulares permitiria às empresas maximizarem a utilização do produto e gerar receitas em várias fases do ciclo de vida do produto. No processo, as empresas podem mitigar o excesso de oferta e de inventário e reduziriam os impactos ambientais associados à extracção de novos materiais para fabricar novos produtos.
Mas será que estão prontas?
A lógica é simples, o crescimento económico provoca emissões, mas também financia a remoção de CO2. Estaremos a ser contraditórios?
É certo e sabido que os riscos financeiros hoje estão diretamente relacionados com os riscos de sustentabilidade ambiental e social, por isso uma das diretivas mais falada é a da Taxonomia. O investimento do negócio tem de estar alinhado com os objetivos ambientais e climáticos da UE. O relatório sustentável, deverá comprovar o alinhamento da Taxonomia Verde.
Para combatermos as emissões é preciso investimento “verde”. É possível ser rentável vendendo menos roupa através do “descrescimento”?”
Nicolaj Reffstrup, fundador da GANNI, acredita que o conceito de produzir menos produtos é um contra-senso com o aumento da população. O conceito de “decrescimento” para além de não ser sexy para os empresários, está fora dos actuais modelos de negócio. Quase como se fosse utópico! Foi isso que chamaram ao livro “Economia Donut”. O principal objetivo desde novo modelo é reformular os problemas económicos e definir novas metas. Nesse modelo, uma economia é considerada próspera quando todas as bases sociais de todos são satisfeitas sem esgotar os recursos do planeta nem ultrapassar nenhum limite ecológico.
Como vamos investir, se não podemos crescer?
No sector da moda o grande impacte está na aquisição de matérias primas. Ou seja, se a minha marca vender mais produtos, mais impacte tem. Nicolaj propõe que em vez de pensarmos em limitar o “crescimento” temos de descobrir como produzir os produtos sem combustíveis fósseis.
A pergunta certa talvez fosse: “Como podemos limitar o consumo de energia?”
80% das emissões de CO2 são geradas durante a produção de matérias-primas. O mais absurdo é que sabemos que 25% é perdido na produção, ou seja estamos a extrair recursos da natureza para deitar ao lixo.
Por muito esforço que as marcas EUROPEIAS coloquem no Âmbito 1 e Âmbito 2, a grande pegada está no Âmbito 3.
Entender o ÂMBITO 3!
ÂMBITO 1 Emissões diretas de propriedade ou fontes controladas, como lojas de retalho e escritórios.
ÂMBITO 2 Emissões indiretas da geração de energia adquirida.
ÂMBITO 3 Todas as emissões indiretas (não incluídas no Escopo 2) que ocorrem na cadeia de abastecimento da empresa, incluindo tanto a montante (materiais e produção) como a jusante (distribuição ao cliente emissões.
A maioria das emissões ocorrem em Âmbito 3, ou seja, na cadeia de abastecimento. As emissões do Âmbito 3 aumentam com o aumento dos produtos vendidos - em suma, crescem com o crescimento do negócio.
Os principais responsáveis pelo âmbito 3 numa empresa de vestuário são:
A aquisição de matéria primas, (não nos esqueçamos que o algodão vem na sua maioria da Índia).
O aumento acentuado das emissões de logísticas para transportar esses bens ao longo da cadeia de valor (do fornecedor ao armazém e do armazém à loja) estamos num mercado global!
Para além disso, com o aumento dos produtos vendidos, aumentamos também as emissões resultantes da utilização e manuseamento em fim de vida.
Conclusão
O decrescimento não é deixar de crescer, é vender de forma diferente! Menos peças, mais valor acrescentado! Em vez de “Decrescimento”, prefiro pensar em crescimento do negócio respeitando a premissa de limitar o aquecimento global em 1,5ºC.
Como refere a Eng. Carla Silva do Citeve, “Não precisamos de reduzir o consumo, temos de comprar é outro tipo de produtos e fazê-los circular”. Pois precisamos de consumir produtos com menos dependência de carbono. Tanto por via do uso de combustíveis fósseis, seja pela transportes das matérias.
As alterações na legislação, os regulamentos e as novas TAXAS previstas vão acelerar tudo isto.
Quando se estabelece uma meta de carbono, antes temos de conhecer a nossa pegada real, pois há muitas coisas fora do nosso controlo. Por isso a Economia Donut propõe garantir que ninguém fique aquém do essencial da vida desde os alimentos, à habitação, saúde e voz política.
Para a redução da pegada de carbono ser efetiva necessitamos de estreitar relações com os parceiros da cadeia de valor. A fim de:
produzir matérias primas com pouca ou nenhuma pegada,
ter uma logística alimentada por energias renováveis
e a reciclagem no final da vida útil dos produtos.
Só uma visão sistémica permitirá olharmos para os limites do crescimento, não como algo mau ou limitativo, mas como uma forma de transformar os negócios na sua base. Adquirir matérias primas por proximidade será essencial.
Em simultaneo é central pensarmos em vender menos produtos de primeira mão dependente de matéria prima virgem, e olharmos para a reciclagem como uma oportunidade. É central também fazermos circular mais as roupas. Para isso, temos de tornar rentável a economia da partilha, ou seja a venda de produto em 2ª mão, reparação e aluguer.
Adquirir produtos sustentáveis é efetivamente mais caro, porque exigem muito investimento em inovação e tecnologia. É preciso investir em soluções de menor impacte sem nunca colocar em causa a rentabilidade do negócio, podendo não significar vender mais produtos. Olhar para matérias primas artificiais será essencial (cânhamo,..)
O crescimento do negócio é inevitável, porque todos nós sabemos que é necessário alocar muitos recursos para combater as emissões de CO2.
São necessárias soluções abrangentes de sustentabilidade e circularidade para nenhum negócio se tornar refém, tanto de matérias primas como o algodão ou o poliéster como de energias verdes. Como em tudo é necessário um equilibrio, entre o combate e o bolso (€).
Num futuro próximo, será mais importante plantar alimentos ou algodão?
Boas Vendas!
Joana