Passaporte Digital ou Rede Social?
Há uma mudança que, na minha opinião, ainda está a passar despercebida.
Temos olhado para o Digital Product Passport (DPP) como uma obrigação regulamentar. Um QR Code, informação técnica e conformidade com a legislação europeia. Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada. E se o verdadeiro valor do DPP não estiver na etiqueta, mas na relação que ela permite criar?
Está a surgir um novo perfil de consumidor: o consumidor circular. Ao contrário do consumidor tradicional, a sua relação com uma peça de roupa não termina no momento da compra. Na verdade, é aí que ela começa. Utiliza a peça, cuida dela, repara-a, autentica-a, revende-a e, muitas vezes, compra outra. O produto deixa de ser um bem descartável e passa a ser um ativo que pode manter valor ao longo do tempo.
Se a relação do consumidor com o produto é contínua, então a tecnologia também não pode terminar na etiqueta.
Fazendo uma analogia. Imaginem que compram um bilhete para um concerto e, por qualquer motivo, já não podem ir. A maioria de nós publica uma mensagem nas redes sociais para tentar encontrar alguém interessado. Mas, o que faria sentido era que a plataforma que vendeu o bilhete facilitasse esse encontro. Não? Ela conhece o evento, sabe que o bilhete existe e sabe que há pessoas à procura dele. O mais lógico seria criar essa ligação.
Com a moda acontece exatamente o mesmo. Hoje, quando deixamos de usar uma peça, saímos do ecossistema da marca e vamos vendê-la na Vinted ou noutra plataforma de segunda mão. A marca perde completamente a ligação ao produto e ao seu próximo utilizador.
Mas e se não tivesse de ser assim?
O Digital Product Passport (DPP) pode abrir um caminho completamente diferente. A mesma identidade digital que hoje serve para cumprir uma obrigação legal pode amanhã permitir que a marca acompanhe o produto durante toda a sua vida útil. Pode confirmar a autenticidade, mostrar o histórico da peça, registar reparações, facilitar a revenda, transferir garantias, recomendar serviços de manutenção e ligar automaticamente o próximo proprietário ao universo da marca.
Nesse momento, a marca deixa de ter uma relação apenas com um cliente. Passa a ter uma relação com o próprio produto, independentemente de quem o possui.
É aqui que vejo uma das maiores oportunidades para empresas como a IoDF - Institute of Digital Fashion.
Fonte: IoDF
O potencial da tecnologia não está apenas em criar um Passaporte Digital de Produto para cumprir o ESPR. Está em transformar esse passaporte numa infraestrutura de relacionamento contínuo, onde cada interação acrescenta valor ao produto, à marca e ao consumidor.
Como CEO da IoDF indica:
“Não substituímos CRM, Shopify ou plataformas de revenda. Sentamo-nos por cima delas, ativando a identidade do produto através desses sistemas.”
O produto passa a incorporar comportamento:
access;
unlocks;
participation;
campaigns;
care;
repair;
resale.
Talvez este seja o verdadeiro futuro do DPP. Não apenas tornar os produtos mais transparentes, mas criar uma nova forma de ligação entre marcas, produtos e consumidores. Porque, na economia circular, a venda deixa de ser o fim da relação. É apenas o início.
Boas Férias
Joana