O dia em que morri.

No dia em que morri, só tinha uma peça de roupa no corpo, o corpo estava queimado.

No dia em que morri, a palavra mar tinha saído do dicionário, o dicionário já não existia, foi substituído pela Alexa.

No dia em que morri, a profissão nadador-salvador desapareceu, já não existe mar.

No dia em que morri, os meus pais tinham 140 anos, porque tomaram o comprimido do tempo e o meu filho decidiu viver na cloud.

No dia em que morri, já não existiam casas de banho, porque já não nos lavamos, usamos um químico.

No dia em que morri, já não existiam cozinhas, porque já não há alimentos para cozinhar.

No dia em que morri, já não existiam carros particulares, nem carros tão pouco, essa palavra também desapareceu.

No dia em que morri, já não existiam governos ou profissões, vivemos da troca e éramos recrutados pelo serviço. Servir é não esperar nada em troca.

No dia em que morri, já não existia dinheiro, nem energia para gastá-lo, já não existe a palavra rico ou pobre.

No dia em que morri, a riqueza eram as árvores, que viviam em cápsulas.

No dia em que morri, o que sabia desaprendi.

Joana

FutureJoana Campos Silva